se a nave é o mundo, o lado de dentro da nave (esse imenso anel de möbius que, talvez, no fundo, no fundo e também no raso, no raso, só tenha um lado, mas essa matemática transfinita e patafísica lhe escapa) não lhe parece às vezes uma caverna, uma rede infinita de túneis que cruzam em crisscross, cruzcredo, encruzilhando-se e criando uma teia rizomática de deixar qualquer deleuziano arrepiado de orgasmos múltiplos, uma rede que emula o centro da terra, em todo caso, o centro de um mundo qualquer digno das calças que veste, um mundo de magma, pedra e porra, porra, um mundo macho que fecunda a a terra fêmea, isso antes do fim das sexualidades físicas, do tempo em que as pinturas rupestres mostravam bonequinhos de palito segurando uma lança na mão e uma jeba dura no meio das pernas, do tempo em que as estátuas pré-sumérias mostravam mulheres pós-sumárias grávidas de todos os mais de cem bilhões de seres que um dia habitaram a terra, se elas soubessem no que ia dar talvez não tivessem dado, o mundo teria dado pé se as mulheres não tivessem dado para os paus?, o que a essa altura é uma questão mais que imaterial, pois você precisa se lembrar a todo instante, matéria não existe, matéria é coisa que colocaram na sua cabeça e que por isso mesmo você transforma, conceitualiza, transmorfeia sem pejo o seu desejo na forma de uma nave, mas claro que alguma coisa tinha que dar errado, porque o seu pensamento é muito maior que a capacidade do seu cérebro em metabolizá-lo, mentalizá-lo, mentabolizá-lo, e você acaba assim, percorrendo um túnel eterno que não tem fim, um arne sakhnussen de si mesmo, um deixador de pistas, um marcador semiótico do self, alguém que deixa migalhas semânticas no caminho para que alguém encontre um dia, nem que seja você mesmo quando o tempo fizer a curva e tudo voltar ao que era antes, porque você está desconfiado que não existe destino nenhum o final dessa história, apenas um eterno retorno, retorno, retorno.

