porque agora é que são elas
porque agora é que são elas
porque agora é que são elasporque agora é que são elas
(e você percebe que o eco na verdade não é eco porrra nenhuma, mas a divisão do seu pensamento em quatro, porque no nexo em que você parou além da luz existem outros três caminhos e em cada um deles um você, mas não é um reflexo, não é um caleidoscópio, não é um truque com espelhos, é antes um carneidoscópio, uma sala de carnes, um açougue quântico dae alma, onde todas as partículas subatômicas se dividem e criam submundos, copacabanas-fausto-fawcett-neguentrópicas que crescem como pão no forno e barriga de menina de dezessete anos grávida de trigêmeos e de repente criam alamedas de possibilidades paralelas, a velha história dos caminhos percorridos e de todos os outros que você não percorreu mas teve vontade de, pois bem, tu te tornas responsável por aquilo que cativas, ou, como diz o velho deitado árabe, cuidado com o que desejas, porque hás de conseguir, e conseguiu: você agora passou por todos os caminhos, desse mal você não morre, aliás você está achando difícil morrer agora.
na beira de um abismo que ao mesmo tempo é uma encruzilhada dividida em quatro (mas que você desconfia que existem mais se olhar com o canto do olho, por isso você nem tenta que você não é besta), você vê
você
você
você
você
e aquele som estranho e multitonal não pára.
você continua descendo o corredor, rolando como a última ervilha da latinha, só que a latinha tem o tamanho da galáxia, o que não ajuda muito sua auto-estima, mas tudo bem, você continua descendo a Piroca de Chtulhu (agora em caixa alta, nada como uma sacanagem para sacudir alguém do marasmo), mas agora você começa a ter idéias, idéias que não estava tendo antes, aliás, você era todo sensação, praticamente não estava pensando nada, só estava penando, penando por um corredor que muda de forma, altura e tamanho, e principalmente de extensão, porque quando você pensa que está vendo uma luz no fim do túnel, não é nem luz nem um trem na contramão, mas simplesmente um nada, um brilho submarino, uma luminescência fraca ou seu olho se acostumou ao silêncio dos comprimentos de onda e vê tudo no escuro. mas agora parece que seu cérebro está começando a pegar no tranco, as frases começam a vir e encontrar pontos. voce respira mais entrecortado mas se dá conta disso. você lembra de um negócio chamado instinto de sobrevivência e percebe que vem coisa aí. quando você percebe está cantarolando, emitindo sons, você está cantando uma música, e leva um tempo imenso, quase infinito até lembrar que é uma música antiga (nessas circunstâncias, bota antiga nisso) de um grupo extinto chamado Jamiroquai, this is the return of the space cowboy? você não lembra se é essa, aliás, está bestificado só por estar cantando e lembrar do nome do grupo. você continua cantarolando (porque não lembra da letra e, além do mais, você só lembra que não consegue mais falar, mas parece que emitir um pseudosilabário básico você consegue, então tudo bem).
Uma pausa. mais uma vez seus sentidos estão em delay, porque você só consegue perceber que não está mais cantando quando leva a mão a boca. mas então que som é esse que você está ouvindo?, porque você está ouvindo uma musiquinha bem ao fundo, bem ao longe. uma musiquinha safada, sem-vergonha, e o que é pior, humana. voce tem quase certeza de que reconhece o que está ouvindo, mas lhe faltam palavras até mesmo dentro da cabeça para definir. mas agora você tem certeza de que não está só. e só não se caga porque você lembra agora de que não lembra quando foi a última vez em que comeu alguma coisa. e a fome volta. junto com o medo.
mas que fome filhadaputa.
para uma realidade onde matéria é coisa que não existe, seu estômago inexistente até que está apitando além da conta, e existe conta num universo onde tudo é matemática transfinita?, é o que você pensa enquanto continua andando, e só agora, depois de sabe-deus-quanto-tempo, você leva a mão ao pneuzinho de gordura acumulado na cintura e percebe que ele não está mais lá, foi para o andar de cima, para o céu da lipoaspiração, só que neste caso você não está fazendo nada além de caminhar, coisa que sua mãe teria aprovado, não estivesse ela morta há milênios, talvez milhões de anos, mas aí nem você tem mais certeza de nada, você só percebe o que seus sentidos lhe dizem, e a única coisa que você sabe com certeza é que seus sentidos não mentem ????????????????????????????????????????