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Livro 2 - O Carneidoscópio

  • Feb. 24th, 2008 at 6:56 PM

porque agora é que são elas

porque agora é que são elas

porque agora é que são elas

porque agora é que são elas

(e você percebe que o eco na verdade não é eco porrra nenhuma, mas a divisão do seu pensamento em quatro, porque no nexo em que você parou além da luz existem outros três caminhos e em cada um deles um você, mas não é um reflexo, não é um caleidoscópio, não é um truque com espelhos, é antes um carneidoscópio, uma sala de carnes, um açougue quântico dae alma, onde todas as partículas subatômicas se dividem e criam submundos, copacabanas-fausto-fawcett-neguentrópicas que crescem como pão no forno e barriga de menina de dezessete anos grávida de trigêmeos e de repente criam alamedas de possibilidades paralelas, a velha história dos caminhos percorridos e de todos os outros que você não percorreu mas teve vontade de, pois bem, tu te tornas responsável por aquilo que cativas, ou, como diz o velho deitado árabe, cuidado com o que desejas, porque hás de conseguir, e conseguiu: você agora passou por todos os caminhos, desse mal você não morre, aliás você está achando difícil morrer agora.

run for the shadows

  • Feb. 7th, 2008 at 8:05 PM

a luz é insuportável, insustentável, abstrata de tão anticoncreta, de um brilho que faz você lembrar que tem uma cabeça, porque a dor de cabeça que começa a se formar atrás dos seus olhos (você também tem olhos, percebe meio entre o fascinado e o aterrorizado) é incrivelmente grande, grande como há muito tempo você não se lembrava, o que é uma coisa paradoxal, porque no instante em que você realmente não vê mais nada ao seu redor, e que percebe que a matéria é uma ilusão, o véu de maya finalmente caído e desintegrado em cinzas, revelando tudo o que é o nada, nesse instante é que você percebe realmente que possui um eu, um eu tão forte e tão renitente, tão resistente a qualquer coisa, a qualquer outro pensamento que no entanto permanece, permanece como a luz que nunca se apaga, mehr licht mehr licht, luz, quero luz, welcome my friends to the show that never ends, the light at the end of the world, a luz que é tudo mas que não é você, a luz de algum modo te engloba, te envolve, te invagina, te imagina, te abre como se você fosse uma tangerina, e cada faceta do seu eu vira um gomo que é aberto em forma de estrela, e de repente, quando você menos espera, você está do outro lado da luz, 

na beira de um abismo que ao mesmo tempo é uma encruzilhada dividida em quatro (mas que você desconfia que existem mais se olhar com o canto do olho, por isso você nem tenta que você não é besta), você vê

você

você

você

você

four quartets

  • Feb. 5th, 2008 at 2:03 PM

a música vai aumentando à medida que você vai descendo pela Incrível, Fantástica, Extraordinária Piroca Suprema de Chtulhu, o Caralho-Rei, the Big Dick, se Raymond Chandler escrevesse pornô inventaria esse título mas não criaria uma história dessas, e certamente não com essa maldita trilha sonora philipglassica monocórdica mas nao monaural, que ao mesmo tempo que aumenta de volume afina de intensidade (isso é possível? você nao tem formação musical nenhuma, então não consegue entender literalmente picas do que está ouvindo) e parece que vai se desdobrando como as pétalas de uma flor, e você percebe que está voltando a ser humano à medida em que sua metáforas vão se tornando mais clichês, mais bregas, mais cafonas, você não se manca não?, manca, manca sim, porque a essa altura os dois pés estão sangrando e você tem a sensação de que daqui a pouco os pés vão simplesmente gastar como a borracha dos apagadores que você usava quando era criança na escola primária, vai tudo gastar e você vai ter que andar sobre dois toquinhos, e você sabe que vai doer, bem mais do que já está doendo e você nunca sentiu uma dor dessas, o que faz você finalmente concatenar seus pensamentos e concluir que está no inferno, mas um inferno que, ao contrário do que Dante disse, é uma reta que não tem mais fim, um retão BR-3, um retão igual a uma veia que você escolhe pra tomar um baque, e você agora se sente é uma gotinha de heroína diluída que acabou de ser cuspida pra fora de uma seringa, mas que não acaba nunca de entrar na veia do feliz usuário, e o efeito não bate, não bate, não bate, bate coração pode bater que dor é essa nos tímpanos que aumenta a cada passo, o som agora está realmente ficando estúpido de tão inusportável, e se repente você levanta a cabeça do vermelho-vinho do chão de sangue e vislumbra um grande clarão branco bem à sua frente, a luz no fim do túnel agora chegou ou é um buraco branco, o brilho intenso de uma supernova que antes de cauterizar a sua carne e rasgá-la de seus ossos vai fazer seus olhos ferverem nas órbitas e explodi-los porque ninguém pode ver tamanha morte? você só é poupado porque penetra na luz branca quase sem pensar (corra para a luz, Caroline, corra para a luz, você lembra de um filme antigo, ou será que era o contrário, será que não era para correr para a luz??), e então você percebe que agora é tarde, fudeu, você está na luz.

trombe d´oeil

  • Feb. 3rd, 2008 at 3:02 PM

você vai caminhando cada vez mais nervoso pela Grande Piroca de Chtulhu, grande mas já não tão grossa, porque você vai notando um afilamento à medida que anda. No começo, não é nada tão perceptível, parece muito mais uma impressão, um trompe l´oeil, uma tromba no olho, um tapa-olho, um pega-trouxa, enfim, um truque de luz, um golpe de vista, porque toda vez que você pára para analisar o fenômeno, a coisa continua do mesmo tamanho, muito impávida e decididamente colossal (nessa hora você começa a cantarolar um hino e aí se lembra de que país você veio, o que já é alguma coisa, ou não), mas essa impressão começa a abrir caminho, abrir caminho mesmo, como uma bucetinha pequena, de moça virgem e pequena, tipo assim um metro e cinqüenta de altura, sendo arrombada, como se dizia no seu tempo, ou arregaçada, como se dizia no futuro do seu tempo que também já é mais do que passado, por um caralho, um senhor caralho, um caralho com maiúscula na inicial, fraque, cartola e monóculo, uma jeb monumental que é parte integrante de um negão musculoso e alto, um armário de dois metros de altura e mais de um metro de envergadura de peitoral, enfim, um sujeito com o qual você não ia querer brigar, mas com o qual você conversaria sem o menor problema aqui nesse corredor vazio sobre o qual seus pés sangrando andam há um tempo que você nem sabe mais, diabo, você até daria o cu pro sujeito se ele exigisse isso para te salvar, mas é bom não pensar muito nisso de qualquer maneira. 

e aquele som estranho e multitonal não pára.

circunstances brought us here

  • Feb. 1st, 2008 at 10:48 AM

você continua descendo o corredor, rolando como a última ervilha da latinha, só que a latinha tem o tamanho da galáxia, o que não ajuda muito sua auto-estima, mas tudo bem, você continua descendo a Piroca de Chtulhu (agora em caixa alta, nada como uma sacanagem para sacudir alguém do marasmo), mas agora você começa a ter idéias, idéias que não estava tendo antes, aliás, você era todo sensação, praticamente não estava pensando nada, só estava penando, penando por um corredor que muda de forma, altura e tamanho, e principalmente de extensão, porque quando você pensa que está vendo uma luz no fim do túnel, não é nem luz nem um trem na contramão, mas simplesmente um nada, um brilho submarino, uma luminescência fraca ou seu olho se acostumou ao silêncio dos comprimentos de onda e vê tudo no escuro. mas agora parece que seu cérebro está começando a pegar no tranco, as frases começam a vir e encontrar pontos. voce respira mais entrecortado mas se dá conta disso. você lembra de um negócio chamado instinto de sobrevivência e percebe que vem coisa aí. quando você percebe está cantarolando, emitindo sons, você está cantando uma música, e leva um tempo imenso, quase infinito até lembrar que é uma música antiga (nessas circunstâncias, bota antiga nisso) de um grupo extinto chamado Jamiroquai, this is the return of the space cowboy? você não lembra se é essa, aliás, está bestificado só por estar cantando e lembrar do nome do grupo. você continua cantarolando (porque não lembra da letra e, além do mais, você só lembra que não consegue mais falar, mas parece que emitir um pseudosilabário básico você consegue, então tudo bem).

Uma pausa. mais uma vez seus sentidos estão em delay, porque você só consegue perceber que não está mais cantando quando leva a mão a boca. mas então que som é esse que você está ouvindo?, porque você está ouvindo uma musiquinha bem ao fundo, bem ao longe. uma musiquinha safada, sem-vergonha, e o que é pior, humana. voce tem quase certeza de que reconhece o que está ouvindo, mas lhe faltam palavras até mesmo dentro da cabeça para definir. mas agora você tem certeza de que não está só. e só não se caga porque você lembra agora de que não lembra quando foi a última vez em que comeu alguma coisa. e a fome volta. junto com o medo.

deep throat

  • Jan. 30th, 2008 at 11:16 PM

engolfado, engrupido, é assim que você se sente enquanto caminha pelos corredores, caminha tanto que nem vê sono nem caminha, e os pés já deixaram de arder há muito tempo, as peles finíssimas dos pés, que assim ficaram de tanto roçarem nuas os pisos absoluta e escrupulosamente lisos, lisos querendo dizer em nível molecular, como se a faxineira de deus pegasse um pano e esfregasse os espaços entre as partículas da matéria, o que seria ótimo se existisse matéria, mas como não existe, você nem se dá conta do sangue que começa a manchar, e a ser imediatamente absorvido pelo, piso de algum metal, de uma liga metálica absolutamente insípida, inodora e incolor, indecente de tão perfeita segundo parâmetros de uma espécie que, segundo seus últimos cálculos, deixou de existir há alguns milhões de anos, e essa espécie é a sua, além da outra, claro, porque os humanos nunca teriam evoluído tanto a ponto de construírem uma estrutura tão gigantesca sem que ela entrasse em absoluto colapso, um corredor dessa magnitude, comprimento e pujança construído por humanos já teria caído, desabado, brochado absolutamente, mas não, você se se sente engolfado, engrupido, como se fosse o menor dos espermaozóides mais defeituosos rolando sozinho pela piroca de chtulhu, na direção de um imenso cu dentro do qual ele vai gozar, sim, porque chtulhu, se existir mesmo, só pode ser uma criatura feita para comer o cu de qualquer raça, um cu-buraco-negro, metáfora totalmente burra mas no entanto de uma sinceridade que dói, e só vai doer mais se você chegar ao fim, se fim isso aqui tiver, e perceber que na verdade chtulhu estava era tocando uma bela uma punheta, e só quem se fodeu foi você.

the naked lunch

  • Jan. 29th, 2008 at 8:28 AM

nu como adão, que não tinha sogra nem  caminhão mas tinha um puta dum jardim do éden e uma mulher pra foder, porque isso foi antes mesmo de desenvolver a linguagem, donde se conclui que todas as piadas de sacanagem do universo não podiam estar erradas, o negócio é sexo, tudo gira em torno de sexo, tudo é sexo, é pau, é buceta, é o fim do caminho, Freud foi o cara que acertou e ninguém deu o devido crédito ao camarada, vamos e venhamos, vamos e venhamos, vamos e venhamos mais rápido que eu vou gozar, que saudade de bater uma punheta, você pensa, mas você olha para baixo e cadê caralho? aí você vê que só pode estar sonhando, porque se isso não fosse um sonho você teria a percepção de que você nasceu com um pau, um pinto, um pênis, é parte integrante de seu corpo e não pode ser vendida separadamente, já diriam as velhas clínicas-piratas de cultivo de órgãos avulsos com as quais os desesperados do mundo,que sempre foram maioria, davam o que tinham e o que não tinham em busca de uma compatibilidade cultivada a partir de células-tronco neutras, pelo menos isso é o que diziam, porque as mais vagabundas costumavam mesmo era roubar pedaços de cadáveres e experimentar a partir deles, frankenstein também era outro que acertou e ninguém deu o crédito a mary shelley, que bolou o monstro de olhos amarelos-cor-de-cirrose num sonho, sonho parecido com o que você está tendo agora, onde você torna a olhar para o meio de suas pernas e não vê o negócio balangando onde devia, coisa que te faz mais do que nunca sentir que isto é um sonho, porque além do cenário absolutamente incompatível com seu nível de crença em technobabble como é que você não tem pau, porra, aliás não tem porra porque não tem pau, tem mas acabou, e se não fosse um sonho você teria a consciência  de que existe algo faltando? ou é o contrário?

mas que fome filhadaputa.

the hunger

  • Jan. 29th, 2008 at 8:21 AM

para uma realidade onde matéria é coisa que não existe, seu estômago inexistente até que está apitando além da conta, e existe conta num universo onde tudo é matemática transfinita?, é o que você pensa enquanto continua andando, e só agora, depois de sabe-deus-quanto-tempo, você leva a mão ao pneuzinho de gordura acumulado na cintura e percebe que ele não está mais lá, foi para o andar de cima, para o céu da lipoaspiração, só que neste caso você não está fazendo nada além de caminhar, coisa que sua mãe teria aprovado, não estivesse ela morta há milênios, talvez milhões de anos, mas aí nem você tem mais certeza de nada, você só percebe o que seus sentidos lhe dizem, e a única coisa que você sabe com certeza é que seus sentidos não mentem ??????????????????????????????????????????????????de qualquer maneira você também percebe que está completamente nu, despido, sem nenhuma peça de roupa, nem um tapa-sexo para esconder suas vergonhas, pero, pero non es nada demás, usted está desnudo y duela a quién duela, carajo, você pensa em portunhol, ou pensa que pensa em portunhol, pois se matéria não existe mais, nem neurônios, nem configurações, nem pensamentos, nem perfume, nem rosa, nem nada. Mas que você tem fome, tem.

life on mars?

  • Jan. 28th, 2008 at 10:03 AM

se você estivesse morto, só faria sentido se você acreditasse num pós-vida científico, um espiritismo, um positivismo, um socialismo utópico, uma religião hugogernsbackiana tipo superscience que justificasse ponto-a-ponto, tintim-por-tintim, nos mínimos detalhes, por que é que a matéria não existe mais mas você ainda consegue se beliscar e sentir dor, o que, convenhamos, não respeita nenhum prncípio de lógica interna, pelo menos a lógica como você a conhecia, em todas as situações nas quais você já se lembra de ter estado na sua vida, o que definitivamente não inclui um caminhar sem fim por um corredor infinito dentro de uma nave que abrange todo o universo, o que já está ficando chato, uma merda, o que faz você lembrar, qual foi a última vez em que você cagou? e você não se lembra, taí algo a se dizer a respeito de alienígenas que saem por aí abduzindo gente sem pedir permissão: pelo menos eles sabem evitar uma cagada, ou pelo menos fazer com que a cagada deles não se transforme na sua. resta só saber se você foi abduzido e se foram alienígenas, porque disso você não tem a menor lembrança. aliás, você só sabe lembrar de algumas referências e citações, porque, pensando bem, voce não lembra de nada do que te aconteceu antes desta nave. e se a terra nunca existiu? e se você vive num constructo virtual? e se o alienígena é você?

flying dutchman

  • Jan. 27th, 2008 at 10:44 AM

holandês voador, judeu errante, some-se os dois e você some: erra, holandês, erra, que herrar é umano, herra e herda logo essa merda, mas segue em frente, toca a vida, pica a mula, isso se você considerar como mula uma espaçonave do tamando do universo, tão antiga, mas tão antiga que você ainda insiste, no fundo das configurações para sempre irremediavelmente congelada dos seus neurônios, em chamar de nave, quando o paradigma é outro, tão outro que não há quem possa, não há o que caiba nos sete buracos da tua cabeça, a sua presença é uma opresença de tão opressora, caminha, caminha, perovaz, que nessa nave, esfera, o caralho a quatro, aqui em se plantando tudo dá, inclusive idéias, que brotam de sua cabeça como deusas gregas da fronte de um overgod, um übergott, um deus fodástico que manda e desmanda, ou, para preservar uma metáfora de seu tempo, dessas que você não costuma nem chamar à memória com medo de que ela se perca entre a gaveta em que está guardada e a linha de frente de sua consciência, uma lâmpada que se acende na sua cabeça como nas histórias pictóricas que você lia algum dia quando pequeno (e houve algum dia na sua vida em que você não se considerou pequeno ante a imensidão do universo ao qual está agora totalmente integrado, mas incrustado do que craca em casco de navio, daqueles que singravam o mar no tempo em que ainda se sabia o que quer dizer singrar, hoje você só sabe o que quer dizer sangrar, e mesmo assim metaforicamente, porque você já morreu e não sabe.

arne sakhnussen

  • Jan. 26th, 2008 at 10:50 PM

se a nave é o mundo, o lado de dentro da nave (esse imenso anel de möbius que, talvez, no fundo, no fundo e também no raso, no raso, só tenha um lado, mas essa matemática transfinita e patafísica lhe escapa) não lhe parece às vezes uma caverna, uma rede infinita de túneis que cruzam em crisscross, cruzcredo, encruzilhando-se e criando uma teia rizomática de deixar qualquer deleuziano arrepiado de orgasmos múltiplos, uma rede que emula o centro da terra, em todo caso, o centro de um mundo qualquer digno das calças que veste, um mundo de magma, pedra e porra, porra, um mundo macho que fecunda a a terra fêmea, isso antes do fim das sexualidades físicas, do tempo em que as pinturas rupestres mostravam bonequinhos de palito segurando uma lança na mão e uma jeba dura no meio das pernas, do tempo em que as estátuas pré-sumérias mostravam mulheres pós-sumárias grávidas de todos os mais de cem bilhões de seres que um dia habitaram a terra, se elas soubessem no que ia dar talvez não tivessem dado, o mundo teria dado pé se as mulheres não tivessem dado para os paus?, o que a essa altura é uma questão mais que imaterial, pois você precisa se lembrar a todo instante, matéria não existe, matéria é coisa que colocaram na sua cabeça e que por isso mesmo você transforma, conceitualiza, transmorfeia sem pejo o seu desejo na forma de uma nave, mas claro que alguma coisa tinha que dar errado, porque o seu pensamento é muito maior que a capacidade do seu cérebro em metabolizá-lo, mentalizá-lo, mentabolizá-lo, e você acaba assim, percorrendo um túnel eterno que não tem fim, um arne sakhnussen de si mesmo, um deixador de pistas, um marcador semiótico do self, alguém que deixa migalhas semânticas no caminho para que alguém encontre um dia, nem que seja você mesmo quando o tempo fizer a curva e tudo voltar ao que era antes, porque você está desconfiado que não existe destino nenhum o final dessa história, apenas um eterno retorno, retorno, retorno.

the invisible mile

  • Jan. 26th, 2008 at 3:35 PM

quando sua nave é o mundo, o mapa é o território, pois cada passo se torna uma cidade, cada corredor uma rodovia, cada mijada um rio, cada passeio uma circunavegação, fernão saberia e me daria razão enquanto ando pelo corredor metálico fosco que me leva tanto mais ao fim de minha jornada quanto mais o percorro, porque a nave é movida a mim, a meus gestos e meus pensamentos, cada respiração uma injeção de combustível (puramente conceitual, claro, há muito tempo não se usa matéria para viajar), cada olhada uma mirada telescópica, a máquina é extensão do home, mchluha me ajuda! mcnahima me proteja se algum dia eu precisar, porque eu vou porque não porque não, caminhando e cantando somos todos iguais braços dados ou não, eu não queria mais já fui agora já foi, o que é um peidinho pra quem está todo cagado? quando o mundo é sua nave, não há limite para sua viagem, porque você já está lá e cá, você nunca saiu de onde não está, é difícil de entender mesmo para quem estudou décadas, que dirá para quem nada estudou e nada sabe, você só sabe que nada sabe, estuda, desgraçado, estuda que quando crescer você vai pra sumpaulo, viu, meu filho? sumpaulo é apenas um holograma num nicho do corredor da nave, mas como dói. porque Minas não há mais, minhas não mais, ai que saudade da minha infância querida, aurora da minha vida, dos dias que não voltam mais, agoa inês é morta, camões não é mais nem pó debaixo da terra porque o terceiro planeta da estrela que um dia foi chamada de sol por seus habitantes não existe mais, nem o sol, sentiram o drama? é um drama que se desenrola. não é mole ser o último humano na última nave na última viagem para a última galáxia. não é mole percorrer toda essa distância em tanto tempo, como não é nem um pouco simples e fácil ter a ciência de que para você quase não se passou tempo algum, não é fácil comer da árvore da ciência do bem e do mal, feliz era adão que não tinha sogra nem caminhão, pelo menos ele viveu na mesopotâmia quando ainda havia potâmia e algo no meio. e quem vive numa nave solta no meio do universo é o quê? babaca?

sinchronicity

  • Jan. 26th, 2008 at 10:29 AM


o tempo passa e com ele caminhamos todos juntos sem parar, nossos passos pelo chão não vão ficar porque os bots de manutenção deixam tudo inescrupulosamente limpo, brilhante, reluzente, a prata do aço brilha como um lâmina de seppuku de mishima ao sol ou como cera parquetina no piso de tacos da casa da minha avó, ai minha avó, saudades do talharim com carne assada aos domingos, gordura pura, não-híbrida, incorreta, entupidora de artérias, e no entanto acredite, nem o rhum creosotado precisou salvá-la, a velhinha morreu dormindo aos noventa e um, o primeiro minuto da prorrogação de uma partida de futebol quando ainda existiam esportes, não os ex-portes de hoje em que é tudo plug and play, e mesmo assim por força da expressão que é poderosa, pede cachimbo como se fosse domingo, pois ninguém precisa mais plugar nada em lugar algum, nem memo na cama, mas não quero falar sobre isso agora, aliás não quero mais falar. telepatizo-me wireless para mim mesmo, penso logo ex-isto. e continuo rabiscando mapas de site da minha alma, nesta nave, nesta esfera em que até o grafite ecoa, e só às paredes confesso.

eu fui o senhor do castelo

  • Jan. 25th, 2008 at 11:30 PM

 

 

sim, eu tive um castelo um dia, i had a farm in africa, eu tive um castelo nos meus sonhos, eu fui o senhor de todo um reino que um dia acabou em pó ao pé dos fatos, e convenhamos, nada mais surreal que um fato assim jogado no meio da sua cara como um dândi que te bate no meio da cara duas vezes (porque a segunda é sempre mais humilhante) com a luva impecavelmente branca e te intima para um duelo, que é justo no dia em que você levou um chifre da namorada, a pedra no rim ataca novamente, você tirou zero na escola e ainda por cima foi atropelado por um ônibus na calçada - tudo coisas da minha imaginação, claro, como se essas palavras que acabei de escrever fizessem algum sentido, não reparem, é que um anjo torto chegou perto de mim e disse, vai, cara, ser gaúcho na vida, pelo menos foi assim que eu entendi, se pelo menos eu tivesse entendido guache poderia ter sido um pintor, e, como sempre, um pintor com tintas de chumbo na época das tintas não-tóxicas, para acabar morrendo justo na véspera de um bando de cientistas que mais tarde ganharia o Nobel anunciar a descoberta do soro da imortalidade. eu fui o senhor do castelo, ah, isso eu fui, mas de que adiantou quando os bárbaros chegaram dizendo tudo é lindo e maravilhoso e eu fiquei com a roupa do corpo, uma mão na frente outra atrás, o cu na mão peito nu cabelo ao vento? e quem nos salvará nessa hora? e quem me salvou?

nada, nada, nada

  • Jan. 25th, 2008 at 11:11 PM

olho para o sol de krishna sob camadas de metafiltros optoconceituais e faço minha refeição em silêncio, conforme deve ser, conforme assim me foi ordenado. Não é difícil: estou sozinho na esfera e a viagem é mais longa em minha cabeça do que fora dela. Passo o tempo rabiscando, rascunhando com um lápis velho de grafite sobre a celulose preservada de papéis avulsos encontrados numa banheira entre as relíquias da casa velha, cadê meu machado? eu já era antigo antes de ser velho. fui professor de literatura quando ninguém mais lia, fui professor de hipermídia quando todos seguiam o caminho da infra - grande é o Oceano de Garbhodaka, para sempre seja louvado - ficava traçando sitemaps com pincel atômico na lousa enquanto todo mundo digitava em seus notebooks, comprei um notebook quando todo mundo só usava implante.

eu sempre fui assim fodido.

olho para o sol de krishna sob camadas de metafiltros optoconceituais e faço minha refeição em silêncio, conforme deve ser, conforme assim me foi ordenado. Não é fácil: estou sozinho na esfera e a viagem é mais longa em minha cabeça do que fora dela. mas um dia eu vou chegar, ah, esse dia vai chegar, e quando eu chegar não quero nem estar por perto pra ver a merda que vai dar. anyway, eu não vou falar nada mesmo.

retábulo - um mantra

  • Jan. 25th, 2008 at 4:36 PM


chacun cherche son chat, cada um caça seu gato, cada um na sua e tudo bem, ema, ema, ema, cada um com seus pobrema, eu não tô fazendo nada você também, que mal faz bater um papo assim gostoso com alguém, hein? deixe que falem, que digam, cada um caça seu deus, cada um reza para quem quer, passarinho que come pedra sabe o cu que tem, eu não tenho nada com isso, eu apenas me ajoelho e rezo, alá é deus e maomé o seu profeta, o senhor é meu pastor e nada me faltará, jesus alegria dos homens, eparrei, iansã, odoiá, iemanjá. aproveito o silêncio e invoco o silício, o silício dos inocentes, ninguém é inocente e você sabe disso, mas mesmo assim o incenso que te incendeia, o pente que te penteia, a caixa de cornéu que ninguem mas faz nem em novaiorque nem em bornéu, e constrói uma arca medindo sete côvados, e coloca nela pelo menos dois chips de cada espécie, dois fios de cada cor, dois diodos de cada lado e lembra dos teus dias sobre a terra, lembra quando havia terra e você a habitava, lembra quando você falava, lembra, não te esquece nunca dos olhos de teu pai. Reza, porque você vai precisar.

elas eram muitas palavras

  • Jan. 25th, 2008 at 11:38 AM

e se derramavam para fora de minha boca sem que eu conseguisse evitar. tombavam para fora da minha mandíbula, pulando antes da língua como se pulassem de um trampolim, davam cambalhotas em pleno ar, mas o problema é que se enroscavam umas nas outras em pleno vôo, e isso foi fatal. elas iam caindo, formando novelos vivos de palavras kamikazes que se espatifavam contra o asfalto duro e quente. nenhuma escapou. eu me sentia o ex-mágico da Taberna Minhota, um personagem de Murilo Rubião, mas, no duro, no duro, o que eu me sentia era uma pessoa que de repente acorda e não sabe onde está, nem quem é, nem por quê. por isso não falo mais. tenho medo.